Muito além de uma medalha olímpica

Confira a entrevista com Flávio Canto, o ex-judoca que se tornou referência pelo trabalho social com crianças e jovens.

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Durante a vida como judoca, Flávio Canto enfrentou vários desafios. Talvez o maior deles tenha sido o ingresso tardio no esporte, aos 14 anos. Cinco anos depois, porém, ele já estava na Seleção Brasileira. Participou de três Olimpíadas, conquistou medalha de bronze em Atenas 2004, é pentacampeão Pan-Americano e participou de dez Copas do Mundo. Hoje, aos 40 anos, Canto se divide entre as funções de apresentador na TV Globo, consultor na seleção brasileira de judô e presidente do Instituto Reação, ONG que promove o desenvolvimento humano de crianças e jovens por meio do esporte. E, para ele, perceber que essa garotada tem, com o Reação, a sensação de pertencimento a uma família, vale mais do que qualquer medalha olímpica. Confira o bate-papo do atleta com Ilha Pura & Você.

Você começou a lutar judô aos 14 anos, idade considerada tardia para um esportista iniciar nessa modalidade. Apesar disso, cinco anos depois, já estava na Seleção Brasileira. Qual foi a sua principal motivação?

Meu irmão fazia judô e eu acompanhava as competições. O professor dele, Geraldo Bernardes, era também técnico do Aurélio Miguel, que foi campeão nas Olimpíadas de 1988. Fiquei muito impressionado com aquela vitória. Comecei no judô tentando seguir os passos do Aurélio, empenhado em seguir o sonho olímpico, embora fosse muito precoce pensar nisso – eu era faixa branca, com 14 anos. Mas treinava mais que todo mundo para poder me aproximar do nível dos outros atletas. Ah, outro motivo para eu começar a fazer judô foi uma surra que levei na escola! Achei que tinha que aprender a lutar para me defender (risos). Mas, depois que entrei no judô, nunca mais briguei com ninguém.

Qual foi o momento mais importante de sua carreira?

O período em que eu estive melhor técnica e fisicamente foinos anos de 2006 e de 2007. Ganhei praticamente tudo e fiquei em primeiro lugar no ranking mundial. Mas é claro que os Jogos Olímpicos marcam muito a vida de um atleta. As Olimpíadas de Atenas (2004), em que fiquei com a medalha de bronze, foram fundamentais. Dois meses antes, quase perdi meu pai, por causa de um infarto. E, ainda em recuperação, ele foi para a Grécia e estava lá comigo nas competições. Quando eu olho para a minha trajetória, talvez um dos momentos mais marcantes que vivi seja o jantar de comemoração em Atenas, com minha família inteira reunida, meu pai, a medalha na mesa…

Durante a vida como judoca, você deve ter enfrentado vários desafios. Qual foi o maior deles?

Primeiro ter começado tarde no esporte. Especialmente para um cara competitivo como eu, estarem desvantagem foi um grande desafio. Era preciso treinar o dobro do que todo mundo para recuperar o tempo perdido. Além disso, as lesões foram grandes adversárias e convivi com muitas ao longo da carreira e em momentos importantes.

Qual foi o grande ensinamento do judô para você?

Levantar sempre. A gente aprende que nossa grande missão não é aprender a derrubar os outros, nem aprender a cair – porque ninguém gosta de cair –, é aprender a se levantar, não importa o tamanho do tombo. É um mantra do judô que a gente leva para a vida pessoal.

Quais suas expectativas para o judô nas Olimpíadas?

O judô é o esporte número um em quantidade de medalhas no Brasil. Temos agora o desafio de manter esse patamar. Temos que pensar grande, em 4 ou 5 medalhas!

E quais são suas apostas para o esporte nos Jogos?

Na equipe feminina, Érika Miranda, Mayra Aguiar, SarahMenezes, Rafaela Silva, que é atleta do Reação, eSuelen Altheman. No time masculino, Victor Penalber, atleta do Reação, Rafael Silva e DavidMoura. Por retrospectiva são os que têm trajetória mais sólida. Mas há atletas tanto da velha-guarda quanto da nova geração que podem surpreender.

Você é idealizador e presidente do Instituto Reação, uma ONG que torna o judô acessível a crianças e jovens de baixa renda. Como surgiu a ideia de trabalhar com causas sociais? Como funciona o projeto?

A proposta é usar o esporte como instrumento de transformação social, formando faixas pretas dentro e fora do tatame. O Reação nasceu em 2003 e, hoje, funcionaem cinco polos (Rocinha, Cidade de Deus, Pequena Cruzada, Tubiacanga e Deodoro), tem 1.200 alunos e se divide em três programas. O Reação Escola de Judô oferece aulas de judô a crianças e adolescentes com idade entre 4 e 15 anos. O Reação Olímpico tem como objetivo desenvolver atletas de alto rendimento para que participem de competições nacionais e internacionais. A Rafaela Silva, por exemplo, é cria do Reação Olímpico. E o Reação Educação oferece oficinas educacionais para as crianças e os adolescentes participantes do Reação Escola de Judô, com o objetivo de desenvolver suas habilidades sociais, pessoais, produtivas e cognitivas, além de ampliar seu repertório cultural. O meu envolvimento com as causas sociais tem a ver com minha história de vida. Nasci na Inglaterra, morei lá por um tempo e por ser de certa forma privilegiado foi difícil não me sensibilizar diante das causas sociais.

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‘Aos 20 anos, comecei a praticar voluntariado. Hoje, me emociona ver que essas crianças e jovens têm, com o Reação, a sensação de pertencimento a uma família.’