Bairro planejado impressiona treinador Bernardinho

Um dos mais vitoriosos e carismáticos personagens do esporte brasileiro, o técnico da seleção brasileira masculina de vôlei, Bernardinho, encontrou um tempo entre uma viagem e outra e foi visitar a Ilha Pura. No último dia 18 de maio, recém-chegado da Europa e prestes a seguir com a seleção para uma temporada de treinos em Saquarema, ele bateu um papo com Ilha Pura & Você e apresentou uma palestra para mais de 150 pessoas, entre arquitetos e engenheiros, que ajudam a construir o local escolhido para receber os melhores atletas do mundo durante as Olimpíadas e Paralimpiadas Rio 2016. A sete meses da entrega das torres ao Comitê Organizador e com o trabalho a todo vapor, a equipe teve uma autêntica aula de motivação e disciplina na qual Bernardinho é “PhD”.

Durante o encontro, ele falou sobre metas, contou muitas histórias da vida dentro e fora das quadras e até criou uma analogia entre seu trabalho e a construção: “Sou como um engenheiro que toca um canteiro de obras, com desafios, orçamento e, sobretudo, gente para liderar. Sou um engenheiro de pessoas”.

Ilha Pura será o endereço do vôlei brasileiro durante os Jogos: “Passaremos pelo menos 90% do tempo aqui. O restante será entre treinos e jogos”. Segundo Bernardinho, o torneio de vôlei é a competição olímpica mais longa, estendendo-se da abertura ao último dia de competições. “Jogamos em um dia, treinamos no dia seguinte. É uma maratona. Ainda estamos à procura do ginásio de treinamentos e a preferência é por algum local próximo à Vila, para evitar grandes deslocamentos”, acrescenta.

O multicampeão, dono de uma medalha de prata como jogador, em Los Angeles (1984) e de incríveis cinco medalhas olímpicas consecutivas como treinador, destacou que considera a sustentabilidade um dos principais atributos de Ilha Pura:

“Fiquei muito impressionado com o projeto, com esse olhar para a reciclagem e o uso mais econômico e eficaz das fontes de energia. Por vezes,
ficamos meio desesperançosos com o que vemos no país, mas perceber que ainda há empresários com consciência ambiental mostra que há luz no fim do túnel”, afirma, destacando que o parque de 72 mil metros quadrados confere mais ambiência ao empreendimento.

De cada uma das vilas olímpicas em que esteve, ele diz guardar boas lembranças, mas evita classificar alguma como “a melhor”: “Estamos falando de um período que vai de 1980 a 2012. É difícil fazer uma comparação intertemporal em um espaço de tempo tão longo. A primeira experiência (Moscou) foi fantástica, exatamente porque foi a primeira, e por ter vivido algo que era totalmente desconhecido. Lembro-me dos grandes prédios, da
arquitetura mais rústica, típica daquele período que antecedeu o fim da União Soviética”.

Em Sydney, lembra, a vila era bastante agradável, mesmo que um tanto distante do local de competições – o judô, por exemplo, ficava hospedado em Camberra. De Atenas, onde conquistou o ouro olímpico, fica a tristeza pelo abandono por que passou a vila olímpica. Pequim, quatro anos mais tarde, foi exemplo da eficiência chinesa: “Era uma vila bastante interessante. Simples, mas muito agradável”.

Sobre Londres, mais elogios. “A vila ficou extremamente funcional e confortável. E, olhando de uma perspectiva de legado, haverá um condomínio muito bonito para seguir em frente, como tenho certeza de que será o caso do Rio de Janeiro. É muito legal saber que isso aqui vai se transformar em um bairro inteiramente planejado e atento às necessidades dos dias de hoje”, acrescenta.

Jogar no Rio

Bernardinho classifica como “momento único” em sua vida a oportunidade de disputar uma Olimpíada no Rio, onde nasceu, deu seus primeiros passos no esporte e criou sua família, mas confessa preocupação: “É fundamental evitar a dispersão, a perda de foco, de atenção. Jogando em casa, precisaremos administrar um número incontável de demandas, desde a família, que vai querer que você dê um pulinho em casa, até amigos que não entenderão o fato de você não ter um ingresso para lhes dar, passando pelo assédio da imprensa. Nossa tarefa será blindar, de forma correta, a equipe e a     comissão técnica”.

Disciplina parece ser, aí, a palavra-chave. Para Bernardinho, todas as atenções devem estar sempre voltadas à competição. Ele conta, por exemplo, que não participou de uma única cerimônia de abertura de Olimpíadas, dentre todas aquelas em que esteve presente: “Sei que deve ser um evento marcante, mas estou lá trabalhando. Não posso me permitir o luxo de perder três, quatro horas, para participar de um desfile. Nem a mim, nem ao grupo”.

Nos Jogos Rio 2016, Bernardinho sabe que precisará matar vários leões por dia. Segundo ele, há pelo menos oito candidatos ao ouro – além do Brasil, que soma três medalhas seguidas e joga em casa, Alemanha, Estados Unidos, França, Rússia, Sérvia, Itália e Polônia. Todos, garante, com chances de subir ao lugar mais alto do pódio. Mesmo sem ser favoritas, outras seleções que terão a chance de causar estragos: “O Irã é um bom exemplo. Não tem time para ganhar as Olimpíadas, mas pode eliminar algum favorito.

Causos

Essa fama de disciplinador já rendeu histórias curiosas envolvendo grandes nomes de outros esportes. Em Pequim, por exemplo, Bernardinho se lembra do dia em que, comandados por Ronaldinho Gaúcho, os jogadores da seleção brasileira de futebol se encontraram com os atletas do vôlei. Munido, como sempre, de instrumentos musicais e tocando samba em plena vila olímpica, Ronaldinho disse que gostaria de conhecer Bernardinho e pediu a um atleta que o chamasse. A resposta veio direta: “Melhor, não. Se ele vier, a primeira coisa que vai fazer é acabar com essa música”.

Em Sydney, recém-consagrado bicampeão em Roland Garros, o tenista Guga Kuerten também conheceu de perto o jeito durão de Bernardinho. Já eliminado no torneio olímpico, Guga se divertia na vila, improvisando um luau, cercado pelas meninas da seleção de vôlei. Lá pelas tantas, o treinador encerrou a festa. Guga ainda insistiu, pediu mais um tempinho, mas não teve jeito e a música acabou. “Ele já estava na curtição, sem mais jogos pela frente. Nós, não. Sei que ele me entendeu”, diz Bernardinho.

O futuro

Totalmente concentrado no desafio olímpico, ele conta ainda não ter planejado seus passos seguintes à Rio 2016. “Desde garoto, vivo o esporte de forma intensa e acredito que dificilmente, no futuro, farei algo que esteja distante disso. Mais do que o esporte, a quadra de jogo, o contato com os jogadores… Mas sei, também, que há uma turma jovem muito preparada, querendo dar sequência a esse trabalho e não quero travar o crescimento
deles. Preciso ver como vou me encaixar nesse projeto pós-Rio 2016″, conta.